sábado, 3 de maio de 2008

Ascenção do Senhor


Homilia do Sexto Domingo do tempo Pascal
(Jo: 14, 15-21)

D. Ângelo Alves de Oliveira, OSB
Mosteiro São Bento- Salvador/BA

Caros irmãos e irmãs, nós estamos no Sexto Domingo da Páscoa e neste domingo a Igreja proclama o evangelho de São João 14,15-21. São João, no seu evangelho, após a narrativa da ceia e do lava-pés e depois da saída de Judas Iscariotes, nos apresenta uma longa fala de despedida de Jesus. Jesus está na última ceia se despedindo de seus Apóstolos, e esse clima de Jesus que sabe que irá sofrer a cruz, a paixão, a morte serve para o clima de despedida que nós vivemos nesse período de tempo pascal, que nós nos preparamos para a ascensão do Senhor que vamos celebrar no próximo domingo. Pois bem, no Sexto Domingo de Páscoa Jesus está preparando os seus discípulos para a vida e a vida a partir do Espírito Santo no tempo da Igreja.
Jesus nos seus dias aqui na terra preparou os seus discípulos e nos prepara hoje, e nós temos que viver com ele unidos e unidos a ele através do Espírito Santo que é o tempo da Igreja, o tempo que nós agora vivemos. E o tempo da Igreja é marcado por uma perseguição constante, como se nós estivéssemos sendo continuamente julgados. É por causa deste julgamento, que Jesus então nos faz um defensor.
A Igreja e seus discípulos perseguidos precisam de um Paráclito. Vejam como isso faz todo sentido no contexto do evangelho de São João. Todo o evangelho de São João, de alguma forma é um processo contra Jesus. Desde o início Jesus está sendo perseguido, acusado e interrogado: de onde você vem? Que autoridade você tem pra fazer estas coisas? Pois bem, Jesus invoca testemunhas. E estas testemunhas são suas obras, João Batista e, sobretudo o próprio Pai.
Agora Jesus sobe para o Pai e não nos quer deixar órfãos, ou seja, não nos quer deixar desamparados.
Se nós formos olhar no Antigo Testamento, há toda uma tradição de cuidados de Deus para com os órfãos e para com as viúvas. Deus é o Pai dos pobres, é aquele que ampara os desamparados.
É exatamente pegando esta idéia e esta tradição do Antigo Testamento que Jesus aqui diz: “Não vos deixareis órfãos”. Ele enviará o Espírito Santo, o defensor que recebe o título pela própria Tradição da Igreja de “Pater Pauperum” pai dos pobres.
O Espírito Santo meus irmãos e irmãs é aquele que está como advogado, como defensor, como pai dos pobres, como aquele que está do nosso lado no momento de angustia e de perseguição.
E uma das características da fidelidade da Igreja a nosso Senhor, é a perseguição. Nós sabemos que a Igreja é fiel a Jesus Cristo, portanto, ela será perseguida até o fim dos tempos.
Se nós formos muito aplaudidos, se o mundo achar que a Igreja está bem, que beleza! Podemos desconfiar, porque foi assim que trataram os falsos profetas, nos recorda Jesus. Portanto, meus irmãos e irmãs, não nos assustemos se a medida de nossa fidelidade a Jesus é uma certa perseguição, é uma certa provação. Porque a Igreja é perseguida e continuará sendo perseguida e vivendo o processo contra Jesus até o fim dos tempos, até que Nosso Senhor Jesus Cristo volte definitivamente na sua Glória.
Mas enquanto isso, nós não estamos sozinhos. Nos discursos escatológicos dos evangelhos sinóticos, ou seja, nos discursos finais dos evangelhos de Mt, Mc e Lc, Jesus diz exatamente isto: “Não vos preocupeis com o que dizer quando fordes levados aos tribunais”. E quais são os tribunais que a Igreja é levada hoje? Os tribunais aos quais a Igreja é levada hoje são os mais diferentes e diversificados. Quantas vezes somos levados ao tribunal da mídia? Quantas vezes somos levados ao tribunal do nosso ambiente de trabalho? Ao tribunal dos nossos amigos?
Não vos preocupeis com o que dizer, o Espírito Santo, o Paráclito, o Defensor, ele está conosco, mesmo quando, por causa da nossa fidelidade somos perseguidos.
Mas é preciso meus irmãos e irmãs, clamar dia após dia por esse defensor nosso. É preciso dar espaço a sua ação em nossas vidas. Ninguém mais que Deus respeita a nossa liberdade. E a este respeito vale a pena recordar o testemunho de uma criança: Ao ser entrevistada, num programa americano de televisão, a apresentadora perguntou-lhe: «Como é que Deus permitiu que acontecesse algo tão horroroso no dia 11 de Setembro»? A criança deu uma resposta extremamente profunda e sábia: “Eu creio que Deus ficou tão profundamente triste com o que aconteceu, como nós ficamos. Mas, desde há muito tempo, que nós dizemos a Deus, para não interferir nas nossas escolhas e no governo das nossas vidas. Sendo como Deus é, que nos deixa toda a liberdade do mundo, eu creio que Ele calmamente nos deixou. À vista dos acontecimentos recentes: ataque dos terroristas, tiroteio nas escolas, o caos que vivemos em nossa sociedade etc., eu creio que tudo começou desde que os homens e mulheres se queixaram de que era impróprio fazer-se oração nas escolas, como tradicionalmente se fazia, e nós concordamos com isso. Depois disso, alguém disse que também seria melhor não ler mais a Bíblia nas escolas... a Bíblia, que nos ensina que não devemos matar, não devemos roubar, e que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos. E nós concordamos. E se uma menina hoje escrevesse um bilhetinho para Deus, dizendo: «Senhor, por que não salvaste aquela criança jogada pela janela?», a Sua resposta seria simplesmente esta: «Querida filha, sabes bem que não me deixam entrar nos lares!». Isso é só pra mostrar o quanto somos rápidos para julgar a Deus, a Igreja como um todo, mas que não queremos ser julgados pelos nossos atos.
Meus irmãos e minhas irmãs se damos espaço para Deus em nossos lares, em nossas vidas, é bem verdade que nós não estamos sozinhos, é bem verdade que nós temos alguém conosco. Que a orfandade não existe, porque o Espírito Santo é pai dos pobres.

Nenhum comentário: